quinta-feira, 23 de agosto de 2012



Nos cavaletes da consciência

O ano eleitoral é um bom período para a população refletir sobre o clima, sobre a lua, sobre viagem espacial. Perdeu-se o gosto e a curiosidade. A verdadeira situação é a seguinte; o povo fica sem ver a tevê, a calçada é invadida por cavalões de pau, a paciência vai para as cucuias com tantos carros de som e tanta gente mendigando voto pelas ruas. E, contudo, o cidadão é obrigado, no dia sete de outubro,  comparecer até a uma urna cheia de frescuras e “plins” para confirmar. Fica difícil não meter um balaço na testa. Em nome de Jesus, não me compreenda mal. Campanha política é uma repetição. Mais do mesmo. É provar que meia dúzia é seis, sempre. Uma baboseira de reforma, da educação, da saúde, do saneamento, da moradia, da alimentação e da segurança. Ano após ano, as mazelas do mundo pontuam de forma sistemática as ofertas de um mundo melhor, levantadas pelos futuros representantes. Inovar é preciso, do contrario, fica impossível “ganhar” o eleitor. 

Há quem diga que, “quem é vivo sempre aparece”, portanto, nestas eleições, vejo um monte de figuras ressuscitadas. E eles povoaram as esquinas de Valadares. Gente, que no figurativo, quer aparecer. Em uma esquina, três facetas. Vi o passado, o presente e o futuro. Na esquina do Guerreiro, ou o ponto de trabalho do finado seu Luís, vendedor de milho verde, bateu uma nostalgia, fiquei por horas no encontro da Av. Minas Gerais, com a Praça Serra Lima, só observando. Outro campeão de esquinas era o quebra-queixo, que ficava em quase todas, dedicado ao trabalho, adoçava a vida com suas rimas nordestinas, um megafone e a bicicleta cargueira. Os milhares de carrinhos de picolés, pilotados por seu Getúlio, o Conterrâneo, o Zé Aparecido, entre tantos, gente que topamos direto no ofício da profissão. O paraquedas se abre e fico encucado com tantos políticos que nunca usam as calçadas, hoje se afirmando donos do pedaço. Perderam a noção da realidade. A ação boba de encavalar fotos é uma estratégia que não tem agradado o eleitor.  

Muito vivo, um amigo passou de carro e refletiu sobre quão esperto seria colocar essas “mídias” em frente ao hospital municipal ou pertinho do lixão. Abusado, foi além, teve a ideia de fazer cabanas paras os moradores de rua como se fossem ocas indígenas. Cavalete fora da medida seria mansão. Casas recicladas, de campanhas sujas e sem graça. Você passa, e está lá um display com o infeliz de terno e gravata para te persuadir. 
       
O vento derrubou uns cinco cavaletes e a senhora de salto agulha se enganchou e foi motivo de risos de um pedinte que ali figurava. Bem ao certo, que o mendigo ria do povo chique e de si próprio ali no meio da cena que redeu um pouco de alegria. A imagem do caudilho ficou danificada, a velha, rompeu a passos largos ao meio-dia e pela hora o sujeito maltrapilho bateu a poeira, foi se levantando e rumou em direção ao restaurante popular. Teoria de tudo excepcionalmente simples. 

Em época de gaiatos, os versos do gaiteiro, exige meditação, “o voto é a arma do povo, que por quatro anos saberá que a arma é o voto do governante”, e puxa o fole seu moço.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

PATRULHA


O menino depois da chuva olhou para o chão de terra, cor de abobora. Brilhava. Os raios de sol avisavam o que era nítido, o fim-de-tarde. Caiu uma chuva daquelas. O cheiro magnífico de terra molhada. O raro cheiro das coisas ao redor vinha à boca. A árvore, a areia, a terra do canteiro até o resto de água empossada onde banha o canarinho. No bairro de gente simples, tudo é simples. Depois da chuva os moleques iam se amontoando um a um e o comentário era o mesmo, a mãe que não deixou sair, a irmã que chegou ensopada e foi surrada, a rua que encheu d’água, a telha da casa que quebrou e inundou a sala, o cachorro que escondeu embaixo do sofá com medo do trovão. O barulho da água sumia no bueiro. A rotina era aquela depois da chuva.
A passarinhada explodia de felicidade no momento em que um, cantava a brincadeira. Pique esconde. Garrafão. Futebol. Corrida de tampinhas. Pula-sela. Patrulha. Birosca. Enfim, a partir daí a meninada corria pelos cantos da rua, feito uns desembestados. O usual era entre os duzentos ou duzentos e cinquenta metros do quarteirão. Incrível como a minha rua era maior que o normal. O olho de criança vê o derredor mais amplo. O mundo parece enorme quando somos jovens. Um dia pude voltar a casa onde nasci. Agora, tudo lá é exageradamente pequeno. Antes não havia esta dimensão, incomum.  
Acompanho da janela o restolho de chuva. Umas pequenas gotículas voadoras num vai lá, vem cá. Frio. Duas crianças reclamam da tempestade. No pátio do condomínio só havia as duas solitárias crianças. A mãe delas ficou presa no trânsito e cancelou o shopping. O maior queria ir a uma pizzaria e óbvio, foi cancelado. O engraçado foi vê-lo correr batendo os pés no chão e embarcar no elevador. Imagine o desaponto.  A cara-feia para os pais. Na cabecinha deles o mundo é completamente singular, loja de shopping, Mcdonalds.
O celular do garoto que ficou no térreo não parava de tocar. Ele atendeu aos berros e zurrou com a mulher do outro lado da chamada. Ela retornou e levou uma fechada de linha bem na orelha. A chuva se esvai e a pobre mãe, presa dentro do automóvel. A tempestade, tadinha, esfolou o carinho fraterno entre mãe e filho. O rapazinho faltou pouco colocar a matriarca da família dele, de joelhos no milho. Claro que de frente pra parede, ora essa. Valores invertidos. Isso me deixou de péssimo humor. Respirei fundo e magoado, então, fecho a janela da mente.
A gana, a massa capitalista, o produto do meio, a velha corrida dos ratos. O queijo à frente, ali no visual, mas a roda segue e nada de alcançar o objetivo. Que objetivo? O queijo brie. Segue a mulher ao volante, lá nos confins de São Paulo com a água batendo na canela, opa-opa, na la–ta–ria. Corrijo o costume interiorano. O dia inteiro trabalho pesado, e ao retornar para casa, esfregões dos filhos. A mulher pediu direitos iguais e chora ao ver sua vida ilhada, sofrida. Solidão em meio a caótica selva de concreto e lama tecnológica.
No prédio, encontro uma foto da minha família. Antiga. O refúgio da minha gente era simples e tinha no retrato um sorriso profundo e verdadeiro. O rosto da gente brilha lá em Minas. No quarto chego a sentar na cama, espero não chegar ao fim da vida neste colosso de retidão. Sinto falta do cheiro da rua onde brincávamos. Rua dois de Julho. A quitanda da esquina. O fim da chuva. Não morro aqui nesta quebrada, nem por reza. Digo e afirmo, morro em Minas.
A esfera azul que navega no espaço, faz rondar a foice rente ao meu crânio. Apocalíptica, “foi-se”. Cerco a minha mente dos devaneios. Pipocam palavras de culpa, Ego, Polir, Empenho, Privar, Sentimento, etc. O desejo de sucesso traiu esta pessoa no mundo. Ouço a pergunta do telejornal, era do helicóptero passando informações sobre a mulher agarrada ao volante, “E o alagamento passou? Sim, agora é esperar o trânsito fluir”. Estou trancado no quarto e no meu peito, a raiva do bebê chorão do cômodo ao lado. O menino crivado de ódio. Cercado de infelicidade metalizada. De um aparato de games e salas de bate-papo no computador. “Tô” com raiva de mim por causar isso tudo a eles, essa tortura urbana, essa solidão hostil.