terça-feira, 24 de janeiro de 2012

PATRULHA


O menino depois da chuva olhou para o chão de terra, cor de abobora. Brilhava. Os raios de sol avisavam o que era nítido, o fim-de-tarde. Caiu uma chuva daquelas. O cheiro magnífico de terra molhada. O raro cheiro das coisas ao redor vinha à boca. A árvore, a areia, a terra do canteiro até o resto de água empossada onde banha o canarinho. No bairro de gente simples, tudo é simples. Depois da chuva os moleques iam se amontoando um a um e o comentário era o mesmo, a mãe que não deixou sair, a irmã que chegou ensopada e foi surrada, a rua que encheu d’água, a telha da casa que quebrou e inundou a sala, o cachorro que escondeu embaixo do sofá com medo do trovão. O barulho da água sumia no bueiro. A rotina era aquela depois da chuva.
A passarinhada explodia de felicidade no momento em que um, cantava a brincadeira. Pique esconde. Garrafão. Futebol. Corrida de tampinhas. Pula-sela. Patrulha. Birosca. Enfim, a partir daí a meninada corria pelos cantos da rua, feito uns desembestados. O usual era entre os duzentos ou duzentos e cinquenta metros do quarteirão. Incrível como a minha rua era maior que o normal. O olho de criança vê o derredor mais amplo. O mundo parece enorme quando somos jovens. Um dia pude voltar a casa onde nasci. Agora, tudo lá é exageradamente pequeno. Antes não havia esta dimensão, incomum.  
Acompanho da janela o restolho de chuva. Umas pequenas gotículas voadoras num vai lá, vem cá. Frio. Duas crianças reclamam da tempestade. No pátio do condomínio só havia as duas solitárias crianças. A mãe delas ficou presa no trânsito e cancelou o shopping. O maior queria ir a uma pizzaria e óbvio, foi cancelado. O engraçado foi vê-lo correr batendo os pés no chão e embarcar no elevador. Imagine o desaponto.  A cara-feia para os pais. Na cabecinha deles o mundo é completamente singular, loja de shopping, Mcdonalds.
O celular do garoto que ficou no térreo não parava de tocar. Ele atendeu aos berros e zurrou com a mulher do outro lado da chamada. Ela retornou e levou uma fechada de linha bem na orelha. A chuva se esvai e a pobre mãe, presa dentro do automóvel. A tempestade, tadinha, esfolou o carinho fraterno entre mãe e filho. O rapazinho faltou pouco colocar a matriarca da família dele, de joelhos no milho. Claro que de frente pra parede, ora essa. Valores invertidos. Isso me deixou de péssimo humor. Respirei fundo e magoado, então, fecho a janela da mente.
A gana, a massa capitalista, o produto do meio, a velha corrida dos ratos. O queijo à frente, ali no visual, mas a roda segue e nada de alcançar o objetivo. Que objetivo? O queijo brie. Segue a mulher ao volante, lá nos confins de São Paulo com a água batendo na canela, opa-opa, na la–ta–ria. Corrijo o costume interiorano. O dia inteiro trabalho pesado, e ao retornar para casa, esfregões dos filhos. A mulher pediu direitos iguais e chora ao ver sua vida ilhada, sofrida. Solidão em meio a caótica selva de concreto e lama tecnológica.
No prédio, encontro uma foto da minha família. Antiga. O refúgio da minha gente era simples e tinha no retrato um sorriso profundo e verdadeiro. O rosto da gente brilha lá em Minas. No quarto chego a sentar na cama, espero não chegar ao fim da vida neste colosso de retidão. Sinto falta do cheiro da rua onde brincávamos. Rua dois de Julho. A quitanda da esquina. O fim da chuva. Não morro aqui nesta quebrada, nem por reza. Digo e afirmo, morro em Minas.
A esfera azul que navega no espaço, faz rondar a foice rente ao meu crânio. Apocalíptica, “foi-se”. Cerco a minha mente dos devaneios. Pipocam palavras de culpa, Ego, Polir, Empenho, Privar, Sentimento, etc. O desejo de sucesso traiu esta pessoa no mundo. Ouço a pergunta do telejornal, era do helicóptero passando informações sobre a mulher agarrada ao volante, “E o alagamento passou? Sim, agora é esperar o trânsito fluir”. Estou trancado no quarto e no meu peito, a raiva do bebê chorão do cômodo ao lado. O menino crivado de ódio. Cercado de infelicidade metalizada. De um aparato de games e salas de bate-papo no computador. “Tô” com raiva de mim por causar isso tudo a eles, essa tortura urbana, essa solidão hostil.