Nos cavaletes da consciência
O ano eleitoral é um bom período para
a população refletir sobre o clima, sobre a lua, sobre viagem espacial. Perdeu-se
o gosto e a curiosidade. A verdadeira situação é a seguinte; o povo fica sem
ver a tevê, a calçada é invadida por cavalões de pau, a paciência vai para as
cucuias com tantos carros de som e tanta gente mendigando voto pelas ruas. E,
contudo, o cidadão é obrigado, no dia sete de outubro, comparecer até a uma urna
cheia de frescuras e “plins” para confirmar. Fica difícil não meter um balaço
na testa. Em nome de Jesus, não me compreenda mal. Campanha política é uma
repetição. Mais do mesmo. É provar que meia dúzia é seis, sempre. Uma baboseira
de reforma, da educação, da saúde, do saneamento, da moradia, da alimentação e
da segurança. Ano após ano, as mazelas do mundo pontuam de forma sistemática as
ofertas de um mundo melhor, levantadas pelos futuros representantes. Inovar é
preciso, do contrario, fica impossível “ganhar” o eleitor.
Há quem diga que, “quem é vivo sempre
aparece”, portanto, nestas eleições, vejo um monte de figuras ressuscitadas. E
eles povoaram as esquinas de Valadares. Gente, que no figurativo, quer aparecer.
Em uma esquina, três facetas. Vi o passado, o presente e o futuro. Na esquina do
Guerreiro, ou o ponto de trabalho do finado seu Luís, vendedor de milho verde, bateu
uma nostalgia, fiquei por horas no encontro da Av. Minas Gerais, com a Praça
Serra Lima, só observando. Outro campeão de esquinas era o quebra-queixo, que ficava
em quase todas, dedicado ao trabalho, adoçava a vida com suas rimas nordestinas,
um megafone e a bicicleta cargueira. Os milhares de carrinhos de picolés,
pilotados por seu Getúlio, o Conterrâneo, o Zé Aparecido, entre tantos, gente
que topamos direto no ofício da profissão. O paraquedas se abre e fico encucado
com tantos políticos que nunca usam as calçadas, hoje se afirmando donos do pedaço.
Perderam a noção da realidade. A ação boba de encavalar fotos é uma estratégia que
não tem agradado o eleitor.
Muito vivo, um amigo passou de carro
e refletiu sobre quão esperto seria colocar essas “mídias” em frente ao
hospital municipal ou pertinho do lixão. Abusado, foi além, teve a ideia de
fazer cabanas paras os moradores de rua como se fossem ocas indígenas. Cavalete
fora da medida seria mansão. Casas recicladas, de campanhas sujas e sem graça.
Você passa, e está lá um display com o infeliz de terno e gravata para te
persuadir.
O vento derrubou uns cinco cavaletes e a senhora de salto agulha se
enganchou e foi motivo de risos de um pedinte que ali figurava. Bem ao certo,
que o mendigo ria do povo chique e de si próprio ali no meio da cena que redeu
um pouco de alegria. A imagem do caudilho ficou danificada, a velha, rompeu a
passos largos ao meio-dia e pela hora o sujeito maltrapilho bateu a poeira, foi
se levantando e rumou em direção ao restaurante popular. Teoria de tudo
excepcionalmente simples.
Em época de gaiatos, os versos do
gaiteiro, exige meditação, “o voto é a arma do povo, que por quatro anos saberá
que a arma é o voto do governante”, e puxa o fole seu moço.