segunda-feira, 28 de novembro de 2011

 
         O Sarcasmo


Tomei a liberdade de escrever este texto que narra simplesmente o dia que fui à feira-livre da minha cidade com o Gil Castello. Atraio pessoas com características extraordinariamente anormais. Anormais mesmo, e não é diferente com o Gil. Digo, ele não tem lado. Totalmente bola. O geminiano é assim, ou você pertence à parte de dentro dele ou está de fora. Eu sempre me importei com a inteligência desprendida e a sabedoria que sintonizávamos. A cada encontro, ficávamos horas falando de tudo neste mundo e de outros mundos também. E se tem dois geminianos, tem abuso do sarcasmo, aí fazíamos o diabo. 
O encontro foi marcado na barraca do Zé Raimundo Reis. A tradição do lugar é beliscar um chouriço na chapa e tomar uma cerveja sem exemplo. O Gil sempre foi pontual, mas desta vez me deixou comendo barbante por uma hora. A vida de carreteiro é barra e as explicações foram aceitas. Ele chegou e me deu um copo em forma de peito com o mamilo rosadinho. Pediu uma dose de água de eloquência para ele, em seguida, uma cerveja. Depois de brindar com os copos eu agradeci o presente. Os clientes desconfiados viam aquilo que eu segurava. Viam, riam e iam. Sem dar a mínima ao fato, meu amigo puxou assunto. Rapaz; - O jornalista escreve para receber o salário no fim do mês e te digo Betão, pare de escrever na internet, esse povo não te dá nada em troca. Imagina o Carlos Drummond fazendo isso, nunca chegaria a receber um centavo pelos pensamentos dele. É verdade, tive de concordar. - Mas Gil? Ele disse: - QAP (na escuta). Não tenho pretensões de ser o Carlos! Ele: - Eu só estou te dando um toque Beto, é que já vi alguém repetindo suas ideias por aí e fiquei pensando. Eu finalizei: - QSL (entendido).
Na última semana a cidade passou por inúmeros problemas relacionados à qualidade da água. O Gil além de odiar o PT, sofre por ter participado da militância do partido e ter levado uma pernada daquelas por se envolver num jogo de interesses da cúpula partidária. Disse baixinho, “Ressentimento é igual a beber veneno e esperar que o outro morra”. Passei a borracha no caderno. Então falei com o amigo, “É loucura jogar fora todas as chances de ser feliz porque uma tentativa não deu certo”. No fundo sei que o amigo tende a procrastinar o sonho de ser político. Silêncio. O copo foi à boca e num trago ele matou todo o liquido ali existente. Lembro que na época o Gil chegou a arranjar dinheiro para a campanha, cabo eleitoral, o ponto do comitê, mobilizar a comunidade e cancelar tudo na véspera. O sufrágio na legenda precisava aumentar e por isso o nome dele ficou para depois, tudo jogada política. Imagina o desgosto. Aproveitei a calada e mandei na lata, “Há tantos burros mandando em homens de inteligência, que, às vezes, fico pensando que a burrice é uma ciência”. Ele riu, e disse: - Isso é Rui Barbosa.
Eis que então ocorre a Lei de Murphy. Um antagonista político chega e nos cumprimenta. Meu sangue talha como o do chouriço à mesa. O sujeito respeitosamente estende a mão e com seu casaco de gabardine saúda-nos. A lei de Murphy é o seguinte, se alguma coisa pode dar errado, dará. Na feira, costuma ir todo tipo de figura, inclusive políticos. Decidi manter a educação. - E você Betão saiu da TV? Sim. - O que faz agora? Eu estou vendendo carros. - Ah sim conheço seu patrão. No passado comprei um FIAT Cento e Quarenta e Oito na mão dele. Retruquei na hora; – Cento e Quarenta e Sete, não? – Não, porque o que ele me vendeu tinha um problema a mais que os outros... “Husss” fui a outro planeta e voltei. O Gil se riu por dentro.
Há muitos anos cultivo o desapego. Buda dizia que um dos pilares que sustenta o sofrimento humano é o apego, ou seja, o apego de toda ordem: Aos bens materiais, às pessoas, às crenças, aos sentimentos, aos pensamentos errôneos e ao passado. Não revidei e o infeliz foi embora e me deixou aborrecido. O ego ferido. Como disse o poeta, ressentimento é igual a beber veneno e esperar que o outro morra. O pensamento do Gil ajudou bastante. Refleti calado, “Também um sujeitinho deste passa nove meses tentando sair de uma vagina, e francamente, a vida inteira tentando retornar”.
O sarcasmo que havia falado no começo, surge, e o medo é de gente que nem tem culpa pagar pelo quiproquó lá atrás. Saímos do bar e fomos às compras. Na banca de verdura o vendedor reclamou do país. O enriquecimento a custa do empobrecimento do cidadão. O trabalhador comparou a vida dele à do pai. O chefe de família antigamente aos trinta anos dava a entrada na casa própria. No dinheiro. Hoje nem mesmo com a ajuda da mulher que também contribui com a renda familiar isso é possível. O povo fica sufocado com a alta dos juros e a baixíssima remuneração. O mesmo ocorre em países como a Tunísia, a Síria, o Egito, a Líbia, etc. A verdade é que o Brasil vive uma esmera ditadura. Ouvi e me despedi do vendeiro com essa, “No Brasil há trezentos e sessenta e cinco dias para sermos chamados de tolos e um dia é oficial, o Primeiro de Abril”.
Como o ovo estava virado observei vindo em minha direção um sujeito de sorriso largo. Aproximou e soltou as sacolas no chão e me deu um reco-reco nas costelas. Abraçou também meu amigo Gil Castello. Pronto, outro que não vale o que o gato enterra. O rapaz estava doido para me dar os parabéns. Fui saber parabéns por quê? - você colocou mensagem no facebook, chamando o povo de burro. Rebati; - Olha amigo, eu sou responsável pelo que escrevo e não pelo que você entende. Nunca faria isso. O sujeito fez cara feia e se sentiu ofendido, apanhou as sacolas e partiu desembestado. Achou que novamente o apelidara de burro. O Gil tinha razão e emendou: – Falei que a internet vai te ferrar. Falou.
No último beco e de compra feita, aponta o fulano. O político. E pensei sobre a vingança que é um prato que se come frio. Deixa pra lá... Porém sushi é um prato que se come frio, portanto sushi é vingança? Não. Chego mais perto e pergunto: - Então senhor Fulano de Tal e a política? Tô lá no mesmo lugar “menino”. - Com quem? - No gabinete do meu irmão. Na malandragem levantei a bola e na medida, rasguei na tal supremacia que emana do povo para o derredor ouvir, “Amigo, não é por que Deus escolheu seu filho como Messias que todo no mundo pode praticar o nepotismo”. Ele riu entre os dentes. O colega da barraca, disse: - Uai ele saiu de fininho. O Gil falou você é mau Roberto Tomaz, e acabou levando uma também, “esfregue uma nota de cem na minha mão que eu fico bonzinho”. O Castello: – Vou embora, depois rola fogo-amigo entre nós, bom fim de semana amigo. - Para você também Castelinho.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Futebol e caixinha de fósforo

A corrida contra o tempo para o início da copa de dois mil e quatorze me fez recordar de outra corrida. O futebol de praia em São Luiz-MA. A diversão reunia os mais toscos jogadores do Angelim, tradicional bairro ludovicense. Quando cheguei ao Maranhão, fui apresentado ao Fernando, presidente do Angelim Futebol Clube como um ótimo jogador. Mentira pura. A minha estada naquele lugar era simplesmente a trabalho, não tinha nada a ver com futebol. Tive pouca oportunidade de esclarecer o mal-entendido com o presidente.
Pense bem, jogar bola eu? Com o pouco que faço, é ficar no boteco e na torcida. Bola pra mim nem em sonho. Sou incomum de ruim. O presidente não quis nem saber, armou a pelada e foi logo me escalando. Colocou meu nome na lista. Domingo fez questão de me apanhar no Angelim, cedo. O fusquinha rumou para o mar. Nove quilômetros de estrada e o cara contou toda a glória do time. A sede a ser construída. Troféus. Vitórias. Sonhos.
O alongamento foi rápido, pois chegamos com atraso à praia do Olho d’Água. Peguei logo a camisa dez, um bom presságio. O Fernandinho com o apito na boca levantou a mão e deu início a partida. Pé na bola. Corri na esquerda, sinalizei para a direita. Olhei para o lado e toquei para o outro. Craque. Pensei. A primeira impressão é a que fica. Estufei o peito na esperança de outro lance bonito. O mar, o sol ainda com preguiça, o vento forte e espectadores do lado de fora. O comentário geral do Mineiro bom de bola.
Não foi assim comigo. Cinco minutos de jogo surge a redonda, caindo em minha direção. Armei o chute e “putz” que furada. Furão. O peso da água ou o Efeito Magnus fez a bola me confundir. O pé passou longe. Ela ainda acertou a minha mão depois de quicar na areia. Lance bisonho. Horroroso. Ouvi na hora, “cruzes Fernandinho esse foi o mineiro que você arranjou”. No minuto seguinte pedi para ser substituído. Corri para o mar e depois para o boteco.
A história da minha passagem pelo universo futebolístico de São Luiz foi um aprendizado, mas sempre que faltava um jogador, lógico, quem o substituía era o dono da barraca e eu ficava tomando conta. No final das partidas o samba comia no centro. A súmula com os nomes dos jogadores era analisada na mesa do bar. Comédia inventada por eles, Bola no gol, o japonês Nazagga, Bob Marley o beck, Barbeiro o volante, Esquerdinha o ponta direita, Chulé o meia e no ataque, Cardíaco e Safeno. O time de fora era Marco, Alam e Brado. Gozação o tempo que dure a resenha.
A lista de nomes pode até ser esquisita e os personagens uma mera coincidência com a vida real, mas o futebol na praia ainda é tradição em Sant Louiz. A caixinha de fósforo, tocada pelo Fernando, dava o tom do samba-reggae. Hora de escorrer a tristeza da derrota, tomando uma gelada. A tarde cai na ilha do amor. O horizonte sinaliza no retrovisor do fusquinha cores de um cenário flutuante. A joaninha corre em silêncio pra o setor três, número cinquenta e cinco do bairro Angelim.