quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Futebol e caixinha de fósforo

A corrida contra o tempo para o início da copa de dois mil e quatorze me fez recordar de outra corrida. O futebol de praia em São Luiz-MA. A diversão reunia os mais toscos jogadores do Angelim, tradicional bairro ludovicense. Quando cheguei ao Maranhão, fui apresentado ao Fernando, presidente do Angelim Futebol Clube como um ótimo jogador. Mentira pura. A minha estada naquele lugar era simplesmente a trabalho, não tinha nada a ver com futebol. Tive pouca oportunidade de esclarecer o mal-entendido com o presidente.
Pense bem, jogar bola eu? Com o pouco que faço, é ficar no boteco e na torcida. Bola pra mim nem em sonho. Sou incomum de ruim. O presidente não quis nem saber, armou a pelada e foi logo me escalando. Colocou meu nome na lista. Domingo fez questão de me apanhar no Angelim, cedo. O fusquinha rumou para o mar. Nove quilômetros de estrada e o cara contou toda a glória do time. A sede a ser construída. Troféus. Vitórias. Sonhos.
O alongamento foi rápido, pois chegamos com atraso à praia do Olho d’Água. Peguei logo a camisa dez, um bom presságio. O Fernandinho com o apito na boca levantou a mão e deu início a partida. Pé na bola. Corri na esquerda, sinalizei para a direita. Olhei para o lado e toquei para o outro. Craque. Pensei. A primeira impressão é a que fica. Estufei o peito na esperança de outro lance bonito. O mar, o sol ainda com preguiça, o vento forte e espectadores do lado de fora. O comentário geral do Mineiro bom de bola.
Não foi assim comigo. Cinco minutos de jogo surge a redonda, caindo em minha direção. Armei o chute e “putz” que furada. Furão. O peso da água ou o Efeito Magnus fez a bola me confundir. O pé passou longe. Ela ainda acertou a minha mão depois de quicar na areia. Lance bisonho. Horroroso. Ouvi na hora, “cruzes Fernandinho esse foi o mineiro que você arranjou”. No minuto seguinte pedi para ser substituído. Corri para o mar e depois para o boteco.
A história da minha passagem pelo universo futebolístico de São Luiz foi um aprendizado, mas sempre que faltava um jogador, lógico, quem o substituía era o dono da barraca e eu ficava tomando conta. No final das partidas o samba comia no centro. A súmula com os nomes dos jogadores era analisada na mesa do bar. Comédia inventada por eles, Bola no gol, o japonês Nazagga, Bob Marley o beck, Barbeiro o volante, Esquerdinha o ponta direita, Chulé o meia e no ataque, Cardíaco e Safeno. O time de fora era Marco, Alam e Brado. Gozação o tempo que dure a resenha.
A lista de nomes pode até ser esquisita e os personagens uma mera coincidência com a vida real, mas o futebol na praia ainda é tradição em Sant Louiz. A caixinha de fósforo, tocada pelo Fernando, dava o tom do samba-reggae. Hora de escorrer a tristeza da derrota, tomando uma gelada. A tarde cai na ilha do amor. O horizonte sinaliza no retrovisor do fusquinha cores de um cenário flutuante. A joaninha corre em silêncio pra o setor três, número cinquenta e cinco do bairro Angelim.

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